Vamos contar um pouco do que vivemos nestas duas semanas no Kenya (ou Quenia, como preferirem). Dividiremos em partes, pra vcs nao cansarem muito.
Se tivesse que resumir o Kenya em uma palavra, seria caos.
Se quiserem ter uma ideia melhor da coisa, sugiro ver dois filmes.
Um eh velho, chama-se "Out of Africa", com a Meryl Streep e o Robert Redford (ainda jovens). Foi filmado em Nairobi e eh uma versao romantizada da Africa no inicio do seculo. Eh a historia real da escritora dinamarquesa Karen Blixen.
O outro eh "O Jardineiro Fiel", com Raph Fiennes e Rachel Weiz. Foi filmado na favela Kibera, tambem em Nairobi. Eh sobre como as empresas farmaceuticas estao testando seus remedios no povo de la.
Bom, agora, sobre a nossa experiencia.
Por onde comecar?
Chegamos la no domingo a noite, depois de aprox. 18 horas de viagem (escala em Londres).
Fomos para a casa de uma familia numa area de favelas chamada Dagoretti, em Nairobi. Como estava escuro, nao vimos nada da redondeza.
As casas eram separadas (mulheres em uma, homens em outra). Banho de balde (agua fria, of course, coletada da chuva), colchao e travesseiros mais velhos do que a gente.
Todas as camas tem mosquiteiros, por motivos praticos (nao esteticos).
O remedio preventivo anti-malaria da pesadelos e sonhos muito vividos.
Na manha seguinte, ao sair pra dar uma olhada, vi que no jardim nos fundos tinha um tumulo (seria o vovo enterrado la?). Um terreno grande, onde tem as casas da familia (a matriarca em uma, cada filho com sua familia em outras), o galinheiro, um curral.
Na sala da casa das mulheres, 32 imagens de Jesus e santos (pelo que entendi a matriarca era algo tipo freira). A area e extremamente pobre, so a avenida principal asfaltada, o resto tudo de chao batido. Esgoto correndo a ceu aberto. Barraquinhas de rua vendendo frutas e outras coisas.
Cabras e bodes passeando soltos por tudo, inclusive no meio da rua, entre os carros. Tudo muito pobre, velho, feio e sujo.
A criancada nos segue pela rua sorrindo, acenando e gritando "how are you?" (que eles falam how a you). Muito fofos! Eh a unica coisa que sabem em ingles. Eles so aprendem ingles quando vao pra escola. Antes disso, so falam swahili. Entao, nao importa o que vc responda, eles continuam dizendo "how are you?".
Os adultos quando nos veem comentam entre si "mzungo" = branco ou "wazungo" = brancos.
Fomos primeiro no orfanato de elefantes. Patrocinados por uma ONG americana, la eles cuidam de elefantinhos que perderam os pais, ate que eles estejam prontos pra se virar sozinhos e ai sao levados para os parques nacionais.
Os bebes (ja com seus 80 Kg) tem a pele muito sensivel ao sol, por isso colocam cobertores nas costas deles. Gostam de brincar de bola, cheirar nosso pe com a tromba e empurrar as coisas com a cabeca. So tomam leite (muitas mamadeiras!). A pele deles e macia (peguei no rabo e o Andre embaixo da pata).
Depois vem os maiorzinhos, que ja sabem tomar banho de lama sozinhos (o protetor solar deles), comem folhas e ja tem peso suficiente pra esmagar a gente.
Os elefantes sao muito emotivos e precisam de atencao constante. Os tratadores precisam inclusive dormir com eles. Ou seja, nao e trabalho facil.
A idade pra ser liberados ao mundo selvagem depende deles mesmos. Quando eles se sentem prontos, podem ir. O mais cedo que um elefante deles voltou ao mundo selvagem foi com 5 anos, mas outros chegaram a 18 antes de estarem maduros o suficiente.
Super legal!
La vimos tambem girafas, um tipo de javali (igualzinho ao do desenho do Rei Leao), aquele besouro que empurra bolas de coco e alguns veados (impalas).
Depois fomos ao centro de girafas.
E um lugar onde cuidam de girafas amecadas de extincao.
Elas sao tao mansinhas que vc pode trata-las! Demos comida na mao pra elas! Acariciamos elas. Abracamos elas! Muuuuito legal!
Se vc quiser, pode tambem "beija-las". As pessoas colocam um pedaco de racao entre os dentes, e a girafa vem e pega. Mas, argh! Isso nao eh pra nos.
Elas tem uma lingua cinza enoooorme e uma baba grudenta! A saliva delas eh anti-septica e altamente cicatrizante, pois a comida preferida das girafas sao folhas de acacia, uma arvore com milhares de espinhos gigantes!
Depois ainda fomos ao mercado, onde compramos agua (muita agua mineral) e outros itens. Nem pra escovar os dentes a água da torneira eh confiável.
No dia seguinte passamos o dia inteiro em orientacao. Tinha mais uns 30 voluntarios. Todos mais novos que a gente, a maioria do Canada, mas tambem varios do USA e Australia.
Aprendemos alguns costumes e habitos locais (vc tem que cumprimentar todo mundo com um aperto de mao, usar roupas conservadoras (so pode mostrar 1/3 do corpo. Nada de saias acima do joelho, decotes, barriga de fora, etc)), as regras, seguranca (nunca estar fora de casa depois que escurecer, cuidados ao pegar os "matatu" (vans tipo lotacao), ter que barganhar sempre quando for comprar qualquer coisa, etc.
Fomos almocar num restaurante dentro da propriedade da Karen Blixen. A casa dela ainda esta la e foi transformada em museu (mas nao visitamos).
O restaurante tem mesas la fora, onde sentamos. De repente veio um gaviao (gigante!) e deu um rasante, roubando comida da bandeja que o garcom carregava.
No dia seguinte nos levaram ao "Nairobi Safari Walk", que eh como se fosse um zoologico, mas com areas designadas em vez de jaulas para os bichos.
A melhor parte foi que pudemos encostar e tirar fotos com uma cheetah (nao eh a macaca do Tarzan, e sim um felino parente da onca). Eu (Lu) era a mais empolgada, pois acho este bicho lindo demais, elegante. O pelo eh duro, e nao macio ao toque, como eu imaginava.
Tambem demos uma voltinha no centro de Nairobi. Eh uma cidade grande, 3.5 milhoes de habitantes. E so meia duzia de semaforos! Os carros tem a direcao e andam do lado direito (afinal, eles eram colonia britanica).
Almocamos num restaurante tipo PF, onde dividimos a mesa com uns quenianos simpaticos.
Eles nos aconselharam a provar o prato tipico, ugali com cozido de carne. Ugali eh uma polenta bem grossa feita de fuba branco, absolutamente sem gosto.
Tambem tomamos Stoney, um refrigerante feito de gengibre (forte que so!).
A tarde cada um foi pro seu posto de voluntariado. No nosso caso, um orfanato numa area rural, perto de Ngong town, a mais ou menos 1 hora de Nairobi.
As criancas estavam de ferias, e ao chegarmos estavam todas fora da casa, estudando.
Fomos apresentados e demos um lapis pra cada cada um, eles super encabulados e timidos.
Fomos os primeiros voluntarios a ficar la na casa. Estavamos muito bem, pois na casa tinha energia eletrica, privada (para nos) e agua corrente (nao no chuveiro, mas na torneira).
Nossa cama era beliche.
Toda quarta-feira eles tem um mini-culto no orfanato, vem um pastor da igreja e eles cantam, oram e leem a biblia.
Na quinta-feira as criancas tinham o dia livre pra passar conosco.
A primeira atividade que fizemos foi encher baloes com agua e fazer aquele jogo de duplas, em que um joga o balao pro outro, da um passo pra tras, joga de novo, mais um passo pra tras, etc. Ate ver quem sao os ultimos que conseguem ficar sem estourar os baloes.
Eles riram a valer, nos divertimos um monte.
Depois demos papel, giz de cera e canetinhas e eles desenharam.
Mas a sensacao do dia foi quando demos uma bola de futebol. A criancada ficou doida!
Organizamos times e eles jogaram ate que a bola foi parar na cerca-viva de espinhos gigantes e furou. Apesar de termos levado bomba, nao foi mais a mesma coisa.
Os maiores foram entao jogar baseball, enquanto os pequenos vinham nos analisar. Mexiam no nosso cabelo, estranhavam que nosso couro cabeludo tambem era branco, que tinhamos pelos (eles nao tem pelos, nem nos bracos, nem nas pernas) e principalmente ficaram intrigados com a tatuagem do Andre! E a surpresa deles quando viram que gente branca fica vermelha quando toma muito sol!!!
O orfanato eh bem organizado, tem uma tabela com cada dia da semana e quem faz o que. As criancas ajudam em todas as obrigacoes domesticas e funciona tudo bem.
Sao 32 criancas, de 5 a 15 anos. A casa eh pequena e tem alguns anexos.
As meninas grandes ficam numa "casinha" separada. Os meninos (so 9) em um "quarto" construido na garagem. As "tias" (cozinheira, professora, faxineiras) em outra "casinha". E o ultimo anexo sao os banheiros = aquelas latrinas de se agaxar (agachar?), e os chuveiros = quartinho com bacia. Tambem um galinheiro.
As refeicoes sao feitas na sala. Nao tem mesas. As criancas sentam em cadeiras de plastico, todas em fila, viradas para a mesma direcao, e por ordem de tamanho.
A familia e os visitantes sentam no sofa, de frente pra criancada. Ou seja, todas elas ficavam nos olhando enquanto comiamos.
Comem em pratos de plastico e so com colher (inclusive a gente). Guardanapo eh um luxo que eles nao podem ter.
Depois assistem (so durante as ferias) uma novelinha mexicana ("A Filha do Jardineiro"), numa TV de 14 polegadas com recepcao terrivel.
As tias cozinham na varanda, em umas estruturas de ferro "tipo gengis-khan", a carvao. Eles tem tres bocas de fogao a gas na cozinha, mas so eh usado para casos especiais (o gas eh muito caro pra eles).
A louca eh lavada la fora, sem pia, no chão, embaixo de uma torneira.
Na sexta de manha acordamos antes das 6:00 e pegamos o onibus de volta pra cidade, pois fomos fazer um safari.
Eram 3 dias de safari (dos quais dois se passa viajando), na reserva de Masai Mara (eh na divisa com a Tanzania. No Kenya o parque se chama Masai Mara, e na Tanzania se chama Serengetti).
Na van com a gente outras voluntarias: duas senhoras da Nova Zelandia (engracadissimas), uma sueca seria e uma nigeriana (que atrasou a partida em duas horas e meia), ah e um italiano. Alem do motorista e do cozinheiro.
Viajamos o dia inteiro, com parada pra almoco e vista de um vale lindo.
A viagem em si foi uma grande aventura. As "estradas" fazem a Transamazonica parecer excelente, o motorista era um doido e era tanto po que o cabelo parava em pe, de tao duro.
Ao chegar ao camping, fomos recepcionados por macacos e uma bela surpresa: chuveiro com agua quente! (aquecida a lenha).
Ainda fomos dar uma voltinha rapida pela reserva, e vimos uma girafa, que atravessou calmamente a estrada na nossa frente, e depois uma hiena.
E um por-do-sol de tirar o folego, com chuva pesada caindo ao longe.
De volta ao camping, por sorte levamos a lanterna, pois nao tinha eletricidade. E o detalhe e que nao avisaram pra levar agua e nem papel higienico. Tivemos que roubar uns guardanapos extra na janta.
No dia seguinte (sábado), enquanto esperavamos o café da manha, um dos macacos entrou na tenda onde sao servidas as refeicoes pra roubar comida e derrubou o pote de acucar. Recolhemos e colocamos la fora pra eles, e comeram a valer, ficaram com os beicos e bigodes cheios de acucar!
Depois fomos fazer safári.
O teto da van levanta, de forma que da pra ficar de pe e olhar pra fora.
A primeira coisa que vimos foi uma familia de elefantes. Tinha mais de 10, inclusive um filhotinho. Eles chegaram MUITO perto da van (a maior femea chegou a uns 3 ou 5 metros), foi lindo.
Rodamos mais um pouquinho e achamos uma leoa, comendo um tipo de veadinho (thompson) que tinha acabado de cacar. Ficamos surpresos em ver que eles comem tudo, inclusive orgaos, tripas, etc. Ja na espera dos restos estavam dois chacais (tipo um cachorro selvagem) e uns abutres/urubus enormes.
Um pouco depois, achamos uma familia de leoes dormindo na sombra de uns arbustos. As femeas e os filhotes. Chegamos tao pertinho que quase dava pra encostar. Nada de machos. Sao cerca de 20 femeas pra cada macho.
Tambem vimos bufalos e muitos bichos da familia dos veados (impalas, gazelas, topi, thompson, tik-tik, etc). Os gnus (ou wildebeest) so voltam na epoca da migracao, em julho, mas vimos um ou outro perdido por la.
Paramos em um dos campings de luxo que ficam dentro do parque para um pipi-stop. Show de bola! Ao sair de la, cruzamos com uma cheetah, se preparando pra cacar seu almoco.
Ficamos esperando pra ver se ela entraria em acao, mas acho que ficou timida com nossa presenca.
Antes do almoco ainda paramos em um rio e pela primeira vez pudemos descer do carro. No rio, vimos hipopotamos. Eles sao muito maiores do que eu pensava!
Os hipopotamos sao os maiores assassinos da Africa. Eles matam mais gente do que todos os leoes, cobras e outros preadores juntos. Eu achava que era um bicho calmo e pacifico, mas vc deve ficar bem longe deles. Os dentes principais tem uns 30cm ou mais, e uma dentada tem forca de mais de 1 tonelada.
Depois o motorista parou a van embaixo de uma arvore de acacia no meio da planicie e fizemos um lanche.
A tarde seguimos em busca de mais bichos, mas a sorte nao estava do nosso lado. Achamos uma carcaca de bufalo, um passaro topetudo, um monte de javalis (aqueles com ate duplo jogo de dentes), mais umas hienas, mas nada de mais extraordinario.
Voltamos pro camping, tomamos banho, jantamos e fomos dormir. Mas os macacos faziam a maior zona do lado de fora das barracas, e nos acordaram varias vezes.
No dia seguinte acordamos antes das 6:00 para mais um pouco de safari, antes da viagem de volta. Ja estavamos rodando a uma hora e nao tinhamos visto nada interessante, ate que de repente, o motorista achou um leao (macho), dormindo.
So a nossa van estava la, e o leao acordou, deu umas voltas, se exibiu um pouco pra gente e sumiu no meio dos arbustos.
Na cola ja chegaram varias outras vans (os motoristas se comunicam por radio, avisando quando encontram algo interessante), mas o leao ja tinha ido embora.
Eh um animal impressionante. Mesmo do alto da nossa van, a alguns metros de distancia, ele eh muito imponente, merece respeito.
Quando estavamos indo embora, avistei ao longe um grupo de girafas. Fomos ate la, e eram varias! Contei, mas ja nao lembro quantas eram. Acho que mais de 10.
Dois machos comecaram a brigar, que da maneira das girafas, ate que eh pacificamente. Elas se encostam de lado e ficam enrolando o pescoco uma na outra, chifrando pescoço e pernas.
Os chamados "Big 5" sao: leao, bufalo, elefante, rinoceronte e leopardo. Mas achamos que a girafa devia ser incluida, pois eh muito alta!! Acho que os 5 são os mais ameaçados de extinção.
Na viagem de volta vimos um grupo de zebras.
Enfim, o safari foi otimo. Nao vimos o rino, nem o leopardo, e nem a migracao dos gnus e zebras, mas em compensacao, nao tivemos que dividir o parque com centenas de outras vans lotadas de turistas japoneses e suas cameras gigantescas (nos cruzamos com menos de uma duzia de vans, mas na alta temporada, chegam a mais de duzentas).
A paisagem ja valia a pena por si so. Aquelas planicies sem fim, com uma ou outra arvore de acacia aqui e ali, aquela grama dourada cobrindo tudo... Hoje eh tao raro vc poder olhar e ver looonge, e so natureza. Nuvens carregadas de chuva em alguns pontos. Bem poetico.
Bom, isso encerra nossa primeira semana. No e-mail seguinte, contaremos mais da nossa experiencia no orfanato.
Beijos mil, com carinho:
Andre & Lu