Fit!
Eh giria que as criancas nos ensinaram, tipo “E ai? Beleza!”
Vamos para a segunda parte!
Agora vamos contar um pouco mais do que foi o tempo no orfanato.
Ja dissemos que eram 32 criancas, de 5 a 15 anos, sendo que so 10 meninos.
Como todos ja estao na escola, todos falam ingles, entao nao tinhamos problema de comunicacao, exceto pelo fato que eles falam MUITO baixinho (sussurrando) e era dificil escutar o que diziam.
Antes de irmos pro safari, as meninas grandes do orfanato perguntaram: ”voce ja experimentou pizza alguma vez?” Elas tinham o sonho de comer pizza. Imagine. A gente pode comer pizza a qualquer hora... Por um momento ficamos arrasados, mas logo em seguida pensamos: este eh um sonho facil de realizar.
Domingo a noite, quando estavamos voltando do safari, pedimos pro motorista parar no mercado e compramos todos ingredientes para fazer pizza.
Tem uma rede de mercados grandes em Nairobi, chamada Nakumatt. Eles tem de tudo. Eh frequentado pelos brancos e pelos negros com grana.
So conseguimos 15 massas de pizza media, mas ja tava valendo. Estas coisas e comidas de branco sao caras, por isso eles nao conseguem comer. Gastamos uns US$ 40, o que pra nos passa, mas pra eles eh impensavel.
Depois o motorista, cobrando por fora, aceitou nos levar ate perto do orfanato. Num certo ponto ele comecou a reclamar que era longe e tivemos que dar mais grana pra ele.
Ele parou o carro na estrada principal e tivemos que caminhar a parte de chao batido, carregando todas as sacolas, ja escurecendo.
Chegamos no orfanato, e fomos recepcionados calorosamente pela turma.
Cada vez que vc encontra as criancas (depois da escola, de manha ao acordar, etc), eles vem e te dao aperto de mao.
Com a Lu a regra era diferente: eles alem do aperto de mao, tinham que dar um abraco. Nos primeiros dias eles nao sabiam o que fazer, queriam sumir, se esconder. Ai, sempre brincando, falava pra eles que ia ensinar como era abraco, e agarrava eles, pegava os bracinhos e colocava ao redor da minha cintura. Depois de alguns dias, eles ja vinham pedindo abraco naturalmente. Entao, eu dava e recebia 32 abracos algumas vezes por dia. Que bom, ne?!
Nas segunda-feira recomecava a escola, e a rotina deles e dura. Eles acordam entre 5:00 e 5:30, fazem algumas tarefas domesticas, colocam o uniforme, tomam cafe e vao pra escola.
De cafe da manha varias vezes por semana eles comem um tipo de mingau, feito com feijao, peixe e outros ingredientes nao muito atraentes. As criancas detestam, mas as tias e a familia insistem que eh altamente nutritivo...
Quando saem pra escola, o resto do pessoal (tias e familia) voltam pra cama e dormem ate umas 9:00.
Nos acordavamos as 9:00, tomavamos cafe (pra nos era especial, nao nos deram o tal mingau nem um dia) e iamos pras nossas tarefas.
O Andre recebeu a incumbencia de catalogar os livros da “biblioteca”, e a Lu ia ajudar na “cozinha”.
O Andre passou varios dias organizando e listando os livros. Ate que uma colecao respeitavel (mais de 300), mas alguns muito antigos e caindo aos pedacos.
E a Lu ia la fora com as tias escolher feijao (de varios tipos), lentilha e outros tipos de grao que nunca tinha visto na vida; separar e lavar couve e outras verduras, ajudar a segurar a panela quando faziam o ugali, etc. De vez em quando se intrometia e lavava a louca, para horror das tias (isso um visitante nunca deveria fazer!).
Na hora do almoco a gente leva comida pras criancas na escola. O feijao e arroz era colocado em potinhos (eles comem com a mao) e a gente levava pra eles (uns 20 min de caminhada). A escola oferece merenda escolar, mas tem que pagar.
As criancas pequenas voltavam pro orfanato junto com a gente, e os mais grandinhos (de 8 anos pra cima) ficam na escola ate as 17:00.
O novo presidente transformou a escola primaria em gratuita, o que foi uma coisa boa, mas esqueceu que exige investimentos em recursos. Entao em salas de aula onde antes tinha 25 alunos, agora chegam a 80. Os professores obviamente nao tem como dar atencao individual, e o nivel caiu muito.
Como ainda assim nao e suficiente, existem escolas privadas. Mas nao pense que a escola privada e melhor do que a publica. Veja um exemplo:
O uniforme era verde e amarelo, vestido para as meninas e bermuda e camisa para os meninos. Tudo gasto, roto, vem velhinho. Os uniformes sao reformados e usados por muitos anos, e passados do maior pro menor.
As meias e sapatos sao so pra ir na escola e na igreja, e assim que chegam, ja lavam e guardam.
As mochilas tem decadas e estao em pedacos.
No Kenya a maioria das pessoas so consegue comprar roupa usada. Roupa nova eh fora de cogitacao, coisa de rico. Entao, eles vao na “feira” e compram (depois detalho melhor a feira).
Eh proibido vender roupa intima usada, entao imagina a dificuldade. Sabiamos disso e levamos uns pacotes de cuecas e calcinhas, que foram muito bem recebidos.
Apesar do Kenya estar bem na linha do Equador, Nairobi e regiao estao a 2000 metros acima do nivel do mar, entao faz um friozinho. E agora eh estacao de chuvas.
De noitinha e de manha (principalmente das 04:00 as 06:00 da manha) faz frio mesmo! E a criancada de pe descalco dentro de casa... Eles tem chinelo, mas nao usam dentro de casa.
Contaram que em julho faz tanto frio que eles andam enrolados em cobertor, e a lareira esta acesa sempre que possivel.
Tivemos sorte e nas semanas que estavamos la nao choveu muito. Quando chovia, passava rapido, mas ficava tudo uma lama so.
A criancada nao tem nem guarda-chuva (com excecao de meia duzia que ganhou de algum parente) e se chove na ida ou volta da escola, nao tem outra opcao a nao ser se molhar.
Voltavamos da escola, almocavamos e ai era hora da soneca da tarde (para todos que estavam em casa).Depois brincavamos um pouco com os pequenos, ajudavamos na tarefa escolar e o Andre voltava a catalogar os livros e a Lu voltava pra cozinha.
Com os pequenos eram varias brincadeiras, desde bolhas de sabao, ate passar tinta na mao deles e “carimbar” no papel, dancar e cantar, aquelas brincadeiras de bater na mao em sequencia (tipo a-do-le-ta) e por ai vai.
O Andre brincou de esconde-esconde e “jackin’ the ball” (ou seria jack in the box?), em que um fica no meio, canta a musiquinha e faz algo que os outros tem que imitar. Rendeu muitas risadas.
A hora dos estudos era braba. Algumas criancas sao muuuuito fraquinhas.
Temos que lembrar que estas criancas passaram por muitas dificuldades, e acho que algumas tiveram ate danos no cerebro.
A Ruth (a mae adotiva, a mulher que criou o orfanato) nos contou que antes de resgatar as criancas, algumas chegavam a passar de 3 ate 5 dias sem comer, so tomando um copo de agua morna.
Um exemplo e a Rose. Ela tem 8 anos, mas tem o tamanho e o peso de uma crianca de 5 ou 6.
Quando a Ruth a trouxe, ela estava completamente desnutrida, sem cabelo e correndo risco de vida. Os pais morreram de AIDS quando ela tinha 3 anos, e a mae ja infectada tinha amamentado-a. Mas fizeram os testes e felizmente a menina nao pegou o virus.
Obviamente criancas que passaram estas privacoes nao conseguem ter o mesmo aproveitamento na escola que uma crianca normal. Mas elas estao tentando e progredindo aos poucos.
E tem alguns inteligentes e muito esforcados.
A noite era hora entao da tao esperada pizza. Tivemos que nos adaptar, pois eles nao tem forno.
Fizemos as pizzas no carvao, usando a chapa de chapati (um tipo de pao chato, parecido com uma panqueca) e uma panela virada em cima para segurar o calor e derreter o queijo.
Apesar de ter queimado um pouquinho a parte de baixo da massa, a criancada adorou.
As criancas comem MUITO. Quando digo muito, vcs nao tem nocao. O prato e uma montanha de comida. Porcao que dois adultos dividiriam no Brasil.
Mas eh porque so comem tres vezes por dia. Nao tem absolutamente nada entre as refeicoes.
E mesmo assim, sao magrinhos. Aqueles bracinhos e perninhas finos.
Nos tinhamos que controlar de perto a porcao que colocavam no nosso prato, pois vc tem que comer tudo tudinho.
Eles nao entendiam como podiamos comer tao “pouco”. Quando eu falava que a quantidade de comida que 32 criancas comiam la seria suficiente para alimentar 50 criancas no Brasil, elas nao acreditavam.
Eles tem um cardapio organizado para cada dia da semana.
A base alimentar e arroz e feijao (ou outro tipo de grao). Uma ou duas vezes por semana um pouquinho de carne (geralmente num molho). E alguns dias por semana o tal do ugali (polenta branca grossa sem sabor) e o chapati (o pao chato tipo panqueca, gorduroso que so).
O dia do ugali era o mais brabo pra nos. Era so o ugali com couve refogada, e eh de comer com a mao. Mas vamos la.
Outro dia fizeram uma comida especial pra nos, que eh um cozido de banana verde (enorme, diferente, em ingles chama-se “plantain”) e batatas, com temperos. Muito bom!
Usam muito coentro (o tempero verde forte) em tudo. Acho que eles nao tem salsinha, so coentro. Sabe que fica muito bom na lentilha?
Em datas especiais, eles matam uma galinha. Para nos homenagear mataram o galo e duas galinhas (contra nossa vontade, nao queriamos dar este gasto pra eles). Fazem a galinha quase inteira (tiram o pe, mas deixam as pernas).
So tomam agua (felizmente eles tem poço), e de manha tomam o “cha”, que eh ao estilo britanico (leite com agua e cha). O orfanato tem uma vaquinha = leite.
Cafe eh muito caro pra eles. Apesar de o Kenya plantar cafe, vai quase todo pra exportacao.
De vez em quando uma fruta de sobremesa (enquanto estavamos la teve pera e laranja).
Quando eh uma festa realmente muito especial, tem churrasco de bode. Comemos um cozido com um pouco de carne de bode na primeira casa (na favela), e a carne eh dura e pura cartilagem.
Depois de comer as criancas “varrem” e lavam o chao. A ‘vassoura’ eh um ramo de galhos fininhos secos. Eles fazem tudo abaixados, o que pras nossas costas seria tortura. Lavar roupa e na mao, e na bacia, pois nao tem tanque.
Depois eh hora da oração, alguns hinos e depois estudar.
As turmas sao divididas e o Andre e a Lu iam ajudar.
Tem uma professorinha no orfanato, que organiza o que eles estudam cada dia e corrige os trabalhos.
Fizemos muita leitura, ditados e afins. Demos uns adesivinhos para motivar.
Depois que ainda nao tomou banho deve tomar e eh hora de dormir.
O banho eh de balde, pois nao tem chuveiro. Felizmente esquentam um tanto de agua no carvao.
Aprendemos que da pra tomar banho com bem pouca agua. Meia bacia ja da.
Nossa vaidade ficou esquecida. Nem espelho ele so tinham, so um pequeno todo manchado.
Esta era a rotina.
Toda noite davamos alguma coisinha pra eles, um chocolate, um lapis, livros, adesivos, balao, presentinhos, etc.
Eles aprenderam a dizer “obrigado” e nos a dizer “karibu” (de nada).
A Lu ficou muito amiga das “tias”. Elas eram interessadas e sempre queriam saber como eram as coisas no Brasil e nos USA.
A maioria delas tem familia, filhos, mas moram longe (ate 12 horas de viagem). Elas tiveram que sair de casa para ir procurar emprego, e perto de Nairobi eh onde ainda tem algumas oportunidades e pagam melhor. Algumas das tias so vem os filhos 3 vezes por ano.
As trabalhadoras domesticas sao meio discriminadas. Tem que comer separadas, la fora e so depois que todo mundo ja comeu, por exemplo. Na primeira casa que ficamos a coitada da empregada era muito excluida. Dei uma pulseira e um pacote de bolachas pra ela quando fomos embora, e ela chorou de alegria e me deu um abraco que valeu por uma vida.
Mas todo mundo, TODO MUNDO MESMO tem celular. E o celular pega em qualquer lugar. Nos as vezes no meio do nada, por exemplo na reserva onde fizemos safari, e o celular deles da sinal. Entao, pelo menos todo mundo se comunica.
E-mail e internet tambem ja tem em toda e qualquer vila. Coneccao discada, uma demooooora, mas tem. 10 minutos de acesso custam 10 shillings = US$ 0,15.
Um dia a assistente da cozinheira convidou a Lu pra ir com ela no “mercado” (feira), na vila de Ngong.
Foi uma experiencia e tanto.
Sao milhares de barraquinhas (podres, nao sei como param em pe) onde se vende de tudo. Frutas, verduras, roupas e sapatos usados, utensilios de cozinha, radio, enfim, o que puder imaginar.
Tem tambem os acougues, uma coisa a parte. La eles nao refrigeram carne (pra comecar geladeira e luxo pra poucos). Entao vc ve aqueles pedacoes de bode e gado pendurados na janela, e o acougueiro cortando o pedaco que vc quer com um facao em cima de um tronco de madeira (que esta la so Deus sabe quanto a quanto tempo). Acho que nao preciso mencionar a higiene (ou melhor, falta dela), ne?!
Tudo alias muito sujo. Sacolas plasticas e restos de verduras por tudo, cabras e bodes passeando pelo meio, lama, etc.
Cada tribo tem sua comida tipica, verduras especificas, etc.
Compramos tomate, cebola e laranjas, e voltamos pro orfanato de matatu.
Pegar matatu eh quase risco de vida. As vans parecem sobreviventes de bomba atomica. Estao caindo aos pedacos, tem buracos no teto e no chao, nao tem cintos de seguranca e nem sei como ainda estao rodando. Os motoristas ganham pelo numero de corridas que realizam, entao dirigem como doidos, correndo, indo pelo acostamento, ultrapassando por todos os lados.
Alguns matatus sao personalizados. Vimos um pintado como “Ferrari”, outro com desenho da Britney, e com nomes criativos.
As criancas tem ambicoes variadas. Das meninas grandes, uma quer ser aeromoca, a outra bancaria. Os meninos querem ser piloto ou engenheiro mecanico. Muitas meninas querem ser medicas.
Se forem bem na escola, existe possibilidade de fazerem faculdade. A melhor aluna (Susan), vai para o internato, onde a educacao e melhor.
E estao bem. O que mantem a esperanca e recuperou estas criancas foi a fe.
O resgate destas criancas foi atraves de uma igreja, e eles acreditam e seguem fielmente na vida crista.
E gracas a Deus e as pessoas que ele usou como instrumento que estas criancas estao bem, felizes e seguras hoje.
Eh interessante observar que estas criancas e o orfanato onde estavamos nao tem como objetivo adocao.
Para eles, a familia e “irmaos” do orfanato sao a nova familia. Eles pretendem ficar juntos ate terem um emprego e casar.
Na sexta-feira o “pai” quis nos levar pra passear. Fomos a um shopping onde tem um “masai market”.
Masaai e uma das grandes tribos do Kenya. Fora das cidades, eles ainda vivem como ha centenas de anos atras.
As mulheres eh que fazem tudo, desde construir a casa (feita de barro, galhos e estrume), cozinhar, cuidar dos filhos, etc.
Os homens no maximo pastoreiam o gado, quando muito. Os homens podem ter varias esposas e estas nao tem direito a nada. Elas nao podem ter nenhum bem (tipo vacas) ou renda. Quando o marido morre, se a esposa nao tiver filhos homens, pode ser que morra de fome.
Os masai sao muito magros, fazem um buraco gigante na orelha e andam envoltos em cobertores xadrez coloridos (que eles mesmo fazem, nao sei como), em tons de vermelho e/ou rosa.
As casas das tribos sao cercadas de espinhos e galhos, para evitar que leoes e leopardos ataquem durante a noite.
Fomos comprar uns souvenirs neste mercado masai, mas eh uma experiencia brutal. Alem do assedio, vc tem que barganhar muito, pois ao ver um branco, o preco se multiplica muitas vezes.
No fim, estavamos muito apegados – nos e as criancas.
Nao pudemos causar nenhum grande impacto na vida deles, mas demos carinho, fizemos eles rir, entregamos presentinhos, brincamos juntos, trocamos conhecimento sobre nossos paises e tentamos ajudar um pouco com o estudo.
Tenho certeza que nos aprendemos muito mais do que eles.
A ultima noite foi uma choradeira, e alguns nos entregaram cartinhas (que nem tivemos coragem de abrir ainda).
Eles ja tinham recebido voluntarios la (tem uma igreja no Tenessee que ajuda a patrocina-los, cujos doadores visitam uma vez ao ano), mas ninguem antes tinha ficado la, dormido la e por tanto tempo.
Todos nos reforcamos a nocao de que cor de pele eh tao importante quanto cor do figado ou do esofago. Alias, quando fomos no shopping para o masai market, estranhamos ao ver gente branca.
Somos todos pessoas e tudo o que queremos e uma vida digna e amor.
E aprendemos que, quando alguem quer (como a Ruth), pode mudar o mundo. Pelo menos o mundo de 32 criancas.
Com fe em Deus, as portas se abrem e milagres acontecem.
1 comment:
Oi Lu e André, não conheço vcs, recebi este link do Hélio, falando sobre a viagem que vcs fizeram.. não lí logo que recebi.. esperei o momento certo... e achei Perfeito.
Eu também sou assim, ainda não fiz nenhuma viagem para realizar este tipo de trabalho, mas tenho este comportamento como filosofia de vida. Sempre que eu posso ajudar algué, fazer alguém mais feliz, faço.
Parabéns, vcs foram lindos e são abençoados.
Fico feliz de não estar sozinho na caminhada pelo bem.
Abraços
Lennon Theiss.
lennon@itacca.com.br
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