Friday, May 18, 2007

1a. parte - Aventuras na Africa (versao portugues)

Jambo!

Vamos contar um pouco do que vivemos nestas duas semanas no Kenya (ou Quenia, como preferirem). Dividiremos em partes, pra vcs nao cansarem muito.

Se tivesse que resumir o Kenya em uma palavra, seria caos.


Se quiserem ter uma ideia melhor da coisa, sugiro ver dois filmes.
Um eh velho, chama-se "Out of Africa", com a Meryl Streep e o Robert Redford (ainda jovens). Foi filmado em Nairobi e eh uma versao romantizada da Africa no inicio do seculo. Eh a historia real da escritora dinamarquesa Karen Blixen.
O outro eh "O Jardineiro Fiel", com Raph Fiennes e Rachel Weiz. Foi filmado na favela Kibera, tambem em Nairobi. Eh sobre como as empresas farmaceuticas estao testando seus remedios no povo de la.

Bom, agora, sobre a nossa experiencia.
Por onde comecar?

Chegamos la no domingo a noite, depois de aprox. 18 horas de viagem (escala em Londres).
Fomos para a casa de uma familia numa area de favelas chamada Dagoretti, em Nairobi. Como estava escuro, nao vimos nada da redondeza.
As casas eram separadas (mulheres em uma, homens em outra). Banho de balde (agua fria, of course, coletada da chuva), colchao e travesseiros mais velhos do que a gente.

Todas as camas tem mosquiteiros, por motivos praticos (nao esteticos).
O remedio preventivo anti-malaria da pesadelos e sonhos muito vividos.

Na manha seguinte, ao sair pra dar uma olhada, vi que no jardim nos fundos tinha um tumulo (seria o vovo enterrado la?). Um terreno grande, onde tem as casas da familia (a matriarca em uma, cada filho com sua familia em outras), o galinheiro, um curral.

Na sala da casa das mulheres, 32 imagens de Jesus e santos (pelo que entendi a matriarca era algo tipo freira). A area e extremamente pobre, so a avenida principal asfaltada, o resto tudo de chao batido. Esgoto correndo a ceu aberto. Barraquinhas de rua vendendo frutas e outras coisas.

Cabras e bodes passeando soltos por tudo, inclusive no meio da rua, entre os carros. Tudo muito pobre, velho, feio e sujo.





A criancada nos segue pela rua sorrindo, acenando e gritando "how are you?" (que eles falam how a you). Muito fofos! Eh a unica coisa que sabem em ingles. Eles so aprendem ingles quando vao pra escola. Antes disso, so falam swahili. Entao, nao importa o que vc responda, eles continuam dizendo "how are you?".

Os adultos quando nos veem comentam entre si "mzungo" = branco ou "wazungo" = brancos.

Como tinhamos o dia inteiro livre, contratamos um taxi pra passear com a gente.
Fomos primeiro no orfanato de elefantes. Patrocinados por uma ONG americana, la eles cuidam de elefantinhos que perderam os pais, ate que eles estejam prontos pra se virar sozinhos e ai sao levados para os parques nacionais.
Os bebes (ja com seus 80 Kg) tem a pele muito sensivel ao sol, por isso colocam cobertores nas costas deles. Gostam de brincar de bola, cheirar nosso pe com a tromba e empurrar as coisas com a cabeca. So tomam leite (muitas mamadeiras!). A pele deles e macia (peguei no rabo e o Andre embaixo da pata).
Depois vem os maiorzinhos, que ja sabem tomar banho de lama sozinhos (o protetor solar deles), comem folhas e ja tem peso suficiente pra esmagar a gente.
Os elefantes sao muito emotivos e precisam de atencao constante. Os tratadores precisam inclusive dormir com eles. Ou seja, nao e trabalho facil.
A idade pra ser liberados ao mundo selvagem depende deles mesmos. Quando eles se sentem prontos, podem ir. O mais cedo que um elefante deles voltou ao mundo selvagem foi com 5 anos, mas outros chegaram a 18 antes de estarem maduros o suficiente.
Super legal!
La vimos tambem girafas, um tipo de javali (igualzinho ao do desenho do Rei Leao), aquele besouro que empurra bolas de coco e alguns veados (impalas).

Depois fomos ao centro de girafas.
E um lugar onde cuidam de girafas amecadas de extincao.
Elas sao tao mansinhas que vc pode trata-las! Demos comida na mao pra elas! Acariciamos elas. Abracamos elas! Muuuuito legal!
Se vc quiser, pode tambem "beija-las". As pessoas colocam um pedaco de racao entre os dentes, e a girafa vem e pega. Mas, argh! Isso nao eh pra nos.
Elas tem uma lingua cinza enoooorme e uma baba grudenta! A saliva delas eh anti-septica e altamente cicatrizante, pois a comida preferida das girafas sao folhas de acacia, uma arvore com milhares de espinhos gigantes!




















Depois ainda fomos ao mercado, onde compramos agua (muita agua mineral) e outros itens. Nem pra escovar os dentes a água da torneira eh confiável.

No dia seguinte passamos o dia inteiro em orientacao. Tinha mais uns 30 voluntarios. Todos mais novos que a gente, a maioria do Canada, mas tambem varios do USA e Australia.

Aprendemos alguns costumes e habitos locais (vc tem que cumprimentar todo mundo com um aperto de mao, usar roupas conservadoras (so pode mostrar 1/3 do corpo. Nada de saias acima do joelho, decotes, barriga de fora, etc)), as regras, seguranca (nunca estar fora de casa depois que escurecer, cuidados ao pegar os "matatu" (vans tipo lotacao), ter que barganhar sempre quando for comprar qualquer coisa, etc.


Fomos almocar num restaurante dentro da propriedade da Karen Blixen. A casa dela ainda esta la e foi transformada em museu (mas nao visitamos).
O restaurante tem mesas la fora, onde sentamos. De repente veio um gaviao (gigante!) e deu um rasante, roubando comida da bandeja que o garcom carregava.

No dia seguinte nos levaram ao "Nairobi Safari Walk", que eh como se fosse um zoologico, mas com areas designadas em vez de jaulas para os bichos.
A melhor parte foi que pudemos encostar e tirar fotos com uma cheetah (nao eh a macaca do Tarzan, e sim um felino parente da onca). Eu (Lu) era a mais empolgada, pois acho este bicho lindo demais, elegante. O pelo eh duro, e nao macio ao toque, como eu imaginava.


Tambem demos uma voltinha no centro de Nairobi. Eh uma cidade grande, 3.5 milhoes de habitantes. E so meia duzia de semaforos! Os carros tem a direcao e andam do lado direito (afinal, eles eram colonia britanica).


Almocamos num restaurante tipo PF, onde dividimos a mesa com uns quenianos simpaticos.
Eles nos aconselharam a provar o prato tipico, ugali com cozido de carne. Ugali eh uma polenta bem grossa feita de fuba branco, absolutamente sem gosto.
Tambem tomamos Stoney, um refrigerante feito de gengibre (forte que so!).

A tarde cada um foi pro seu posto de voluntariado. No nosso caso, um orfanato numa area rural, perto de Ngong town, a mais ou menos 1 hora de Nairobi.

As criancas estavam de ferias, e ao chegarmos estavam todas fora da casa, estudando.
Fomos apresentados e demos um lapis pra cada cada um, eles super encabulados e timidos.
Fomos os primeiros voluntarios a ficar la na casa. Estavamos muito bem, pois na casa tinha energia eletrica, privada (para nos) e agua corrente (nao no chuveiro, mas na torneira).
Nossa cama era beliche.

Toda quarta-feira eles tem um mini-culto no orfanato, vem um pastor da igreja e eles cantam, oram e leem a biblia.

Na quinta-feira as criancas tinham o dia livre pra passar conosco.
A primeira atividade que fizemos foi encher baloes com agua e fazer aquele jogo de duplas, em que um joga o balao pro outro, da um passo pra tras, joga de novo, mais um passo pra tras, etc. Ate ver quem sao os ultimos que conseguem ficar sem estourar os baloes.
Eles riram a valer, nos divertimos um monte.

Depois demos papel, giz de cera e canetinhas e eles desenharam.

Mas a sensacao do dia foi quando demos uma bola de futebol. A criancada ficou doida!
Organizamos times e eles jogaram ate que a bola foi parar na cerca-viva de espinhos gigantes e furou. Apesar de termos levado bomba, nao foi mais a mesma coisa.

Os maiores foram entao jogar baseball, enquanto os pequenos vinham nos analisar. Mexiam no nosso cabelo, estranhavam que nosso couro cabeludo tambem era branco, que tinhamos pelos (eles nao tem pelos, nem nos bracos, nem nas pernas) e principalmente ficaram intrigados com a tatuagem do Andre! E a surpresa deles quando viram que gente branca fica vermelha quando toma muito sol!!!

O orfanato eh bem organizado, tem uma tabela com cada dia da semana e quem faz o que. As criancas ajudam em todas as obrigacoes domesticas e funciona tudo bem.

Sao 32 criancas, de 5 a 15 anos. A casa eh pequena e tem alguns anexos.
As meninas grandes ficam numa "casinha" separada. Os meninos (so 9) em um "quarto" construido na garagem. As "tias" (cozinheira, professora, faxineiras) em outra "casinha". E o ultimo anexo sao os banheiros = aquelas latrinas de se agaxar (agachar?), e os chuveiros = quartinho com bacia. Tambem um galinheiro.

As refeicoes sao feitas na sala. Nao tem mesas. As criancas sentam em cadeiras de plastico, todas em fila, viradas para a mesma direcao, e por ordem de tamanho.

A familia e os visitantes sentam no sofa, de frente pra criancada. Ou seja, todas elas ficavam nos olhando enquanto comiamos.
Comem em pratos de plastico e so com colher (inclusive a gente). Guardanapo eh um luxo que eles nao podem ter.
Depois assistem (so durante as ferias) uma novelinha mexicana ("A Filha do Jardineiro"), numa TV de 14 polegadas com recepcao terrivel.

As tias cozinham na varanda, em umas estruturas de ferro "tipo gengis-khan", a carvao. Eles tem tres bocas de fogao a gas na cozinha, mas so eh usado para casos especiais (o gas eh muito caro pra eles).
A louca eh lavada la fora, sem pia, no chão, embaixo de uma torneira.


Na sexta de manha acordamos antes das 6:00 e pegamos o onibus de volta pra cidade, pois fomos fazer um safari.

Eram 3 dias de safari (dos quais dois se passa viajando), na reserva de Masai Mara (eh na divisa com a Tanzania. No Kenya o parque se chama Masai Mara, e na Tanzania se chama Serengetti).

Na van com a gente outras voluntarias: duas senhoras da Nova Zelandia (engracadissimas), uma sueca seria e uma nigeriana (que atrasou a partida em duas horas e meia), ah e um italiano. Alem do motorista e do cozinheiro.
Viajamos o dia inteiro, com parada pra almoco e vista de um vale lindo.
A viagem em si foi uma grande aventura. As "estradas" fazem a Transamazonica parecer excelente, o motorista era um doido e era tanto po que o cabelo parava em pe, de tao duro.

Ao chegar ao camping, fomos recepcionados por macacos e uma bela surpresa: chuveiro com agua quente! (aquecida a lenha).

Ainda fomos dar uma voltinha rapida pela reserva, e vimos uma girafa, que atravessou calmamente a estrada na nossa frente, e depois uma hiena.
E um por-do-sol de tirar o folego, com chuva pesada caindo ao longe.

De volta ao camping, por sorte levamos a lanterna, pois nao tinha eletricidade. E o detalhe e que nao avisaram pra levar agua e nem papel higienico. Tivemos que roubar uns guardanapos extra na janta.

No dia seguinte (sábado), enquanto esperavamos o café da manha, um dos macacos entrou na tenda onde sao servidas as refeicoes pra roubar comida e derrubou o pote de acucar. Recolhemos e colocamos la fora pra eles, e comeram a valer, ficaram com os beicos e bigodes cheios de acucar!

Depois fomos fazer safári.
O teto da van levanta, de forma que da pra ficar de pe e olhar pra fora.


A primeira coisa que vimos foi uma familia de elefantes. Tinha mais de 10, inclusive um filhotinho. Eles chegaram MUITO perto da van (a maior femea chegou a uns 3 ou 5 metros), foi lindo.


Rodamos mais um pouquinho e achamos uma leoa, comendo um tipo de veadinho (thompson) que tinha acabado de cacar. Ficamos surpresos em ver que eles comem tudo, inclusive orgaos, tripas, etc. Ja na espera dos restos estavam dois chacais (tipo um cachorro selvagem) e uns abutres/urubus enormes.

Um pouco depois, achamos uma familia de leoes dormindo na sombra de uns arbustos. As femeas e os filhotes. Chegamos tao pertinho que quase dava pra encostar. Nada de machos. Sao cerca de 20 femeas pra cada macho.

Tambem vimos bufalos e muitos bichos da familia dos veados (impalas, gazelas, topi, thompson, tik-tik, etc). Os gnus (ou wildebeest) so voltam na epoca da migracao, em julho, mas vimos um ou outro perdido por la.

Paramos em um dos campings de luxo que ficam dentro do parque para um pipi-stop. Show de bola! Ao sair de la, cruzamos com uma cheetah, se preparando pra cacar seu almoco.
Ficamos esperando pra ver se ela entraria em acao, mas acho que ficou timida com nossa presenca.

Antes do almoco ainda paramos em um rio e pela primeira vez pudemos descer do carro. No rio, vimos hipopotamos. Eles sao muito maiores do que eu pensava!
Os hipopotamos sao os maiores assassinos da Africa. Eles matam mais gente do que todos os leoes, cobras e outros preadores juntos. Eu achava que era um bicho calmo e pacifico, mas vc deve ficar bem longe deles. Os dentes principais tem uns 30cm ou mais, e uma dentada tem forca de mais de 1 tonelada.

Depois o motorista parou a van embaixo de uma arvore de acacia no meio da planicie e fizemos um lanche.


A tarde seguimos em busca de mais bichos, mas a sorte nao estava do nosso lado. Achamos uma carcaca de bufalo, um passaro topetudo, um monte de javalis (aqueles com ate duplo jogo de dentes), mais umas hienas, mas nada de mais extraordinario.

Voltamos pro camping, tomamos banho, jantamos e fomos dormir. Mas os macacos faziam a maior zona do lado de fora das barracas, e nos acordaram varias vezes.

No dia seguinte acordamos antes das 6:00 para mais um pouco de safari, antes da viagem de volta. Ja estavamos rodando a uma hora e nao tinhamos visto nada interessante, ate que de repente, o motorista achou um leao (macho), dormindo.
So a nossa van estava la, e o leao acordou, deu umas voltas, se exibiu um pouco pra gente e sumiu no meio dos arbustos.
Na cola ja chegaram varias outras vans (os motoristas se comunicam por radio, avisando quando encontram algo interessante), mas o leao ja tinha ido embora.
Eh um animal impressionante. Mesmo do alto da nossa van, a alguns metros de distancia, ele eh muito imponente, merece respeito.



Quando estavamos indo embora, avistei ao longe um grupo de girafas. Fomos ate la, e eram varias! Contei, mas ja nao lembro quantas eram. Acho que mais de 10.
Dois machos comecaram a brigar, que da maneira das girafas, ate que eh pacificamente. Elas se encostam de lado e ficam enrolando o pescoco uma na outra, chifrando pescoço e pernas.


Os chamados "Big 5" sao: leao, bufalo, elefante, rinoceronte e leopardo. Mas achamos que a girafa devia ser incluida, pois eh muito alta!! Acho que os 5 são os mais ameaçados de extinção.
Na viagem de volta vimos um grupo de zebras.

Enfim, o safari foi otimo. Nao vimos o rino, nem o leopardo, e nem a migracao dos gnus e zebras, mas em compensacao, nao tivemos que dividir o parque com centenas de outras vans lotadas de turistas japoneses e suas cameras gigantescas (nos cruzamos com menos de uma duzia de vans, mas na alta temporada, chegam a mais de duzentas).

A paisagem ja valia a pena por si so. Aquelas planicies sem fim, com uma ou outra arvore de acacia aqui e ali, aquela grama dourada cobrindo tudo... Hoje eh tao raro vc poder olhar e ver looonge, e so natureza. Nuvens carregadas de chuva em alguns pontos. Bem poetico.

Bom, isso encerra nossa primeira semana. No e-mail seguinte, contaremos mais da nossa experiencia no orfanato.

Beijos mil, com carinho:
Andre & Lu

2a. parte - Aventuras na Africa (versao portugues)

Sasa?
Fit!

Eh giria que as criancas nos ensinaram, tipo “E ai? Beleza!”

Vamos para a segunda parte!
Agora vamos contar um pouco mais do que foi o tempo no orfanato.
Ja dissemos que eram 32 criancas, de 5 a 15 anos, sendo que so 10 meninos.
Como todos ja estao na escola, todos falam ingles, entao nao tinhamos problema de comunicacao, exceto pelo fato que eles falam MUITO baixinho (sussurrando) e era dificil escutar o que diziam.

Antes de irmos pro safari, as meninas grandes do orfanato perguntaram: ”voce ja experimentou pizza alguma vez?” Elas tinham o sonho de comer pizza. Imagine. A gente pode comer pizza a qualquer hora... Por um momento ficamos arrasados, mas logo em seguida pensamos: este eh um sonho facil de realizar.
Domingo a noite, quando estavamos voltando do safari, pedimos pro motorista parar no mercado e compramos todos ingredientes para fazer pizza.
Tem uma rede de mercados grandes em Nairobi, chamada Nakumatt. Eles tem de tudo. Eh frequentado pelos brancos e pelos negros com grana.
So conseguimos 15 massas de pizza media, mas ja tava valendo. Estas coisas e comidas de branco sao caras, por isso eles nao conseguem comer. Gastamos uns US$ 40, o que pra nos passa, mas pra eles eh impensavel.

Depois o motorista, cobrando por fora, aceitou nos levar ate perto do orfanato. Num certo ponto ele comecou a reclamar que era longe e tivemos que dar mais grana pra ele.
Ele parou o carro na estrada principal e tivemos que caminhar a parte de chao batido, carregando todas as sacolas, ja escurecendo.
Chegamos no orfanato, e fomos recepcionados calorosamente pela turma.
Cada vez que vc encontra as criancas (depois da escola, de manha ao acordar, etc), eles vem e te dao aperto de mao.
Com a Lu a regra era diferente: eles alem do aperto de mao, tinham que dar um abraco. Nos primeiros dias eles nao sabiam o que fazer, queriam sumir, se esconder. Ai, sempre brincando, falava pra eles que ia ensinar como era abraco, e agarrava eles, pegava os bracinhos e colocava ao redor da minha cintura. Depois de alguns dias, eles ja vinham pedindo abraco naturalmente. Entao, eu dava e recebia 32 abracos algumas vezes por dia. Que bom, ne?!

Nas segunda-feira recomecava a escola, e a rotina deles e dura. Eles acordam entre 5:00 e 5:30, fazem algumas tarefas domesticas, colocam o uniforme, tomam cafe e vao pra escola.
De cafe da manha varias vezes por semana eles comem um tipo de mingau, feito com feijao, peixe e outros ingredientes nao muito atraentes. As criancas detestam, mas as tias e a familia insistem que eh altamente nutritivo...
Quando saem pra escola, o resto do pessoal (tias e familia) voltam pra cama e dormem ate umas 9:00.

Nos acordavamos as 9:00, tomavamos cafe (pra nos era especial, nao nos deram o tal mingau nem um dia) e iamos pras nossas tarefas.
O Andre recebeu a incumbencia de catalogar os livros da “biblioteca”, e a Lu ia ajudar na “cozinha”.
O Andre passou varios dias organizando e listando os livros. Ate que uma colecao respeitavel (mais de 300), mas alguns muito antigos e caindo aos pedacos.
E a Lu ia la fora com as tias escolher feijao (de varios tipos), lentilha e outros tipos de grao que nunca tinha visto na vida; separar e lavar couve e outras verduras, ajudar a segurar a panela quando faziam o ugali, etc. De vez em quando se intrometia e lavava a louca, para horror das tias (isso um visitante nunca deveria fazer!).

Na hora do almoco a gente leva comida pras criancas na escola. O feijao e arroz era colocado em potinhos (eles comem com a mao) e a gente levava pra eles (uns 20 min de caminhada). A escola oferece merenda escolar, mas tem que pagar.
As criancas pequenas voltavam pro orfanato junto com a gente, e os mais grandinhos (de 8 anos pra cima) ficam na escola ate as 17:00.

O novo presidente transformou a escola primaria em gratuita, o que foi uma coisa boa, mas esqueceu que exige investimentos em recursos. Entao em salas de aula onde antes tinha 25 alunos, agora chegam a 80. Os professores obviamente nao tem como dar atencao individual, e o nivel caiu muito.
Como ainda assim nao e suficiente, existem escolas privadas. Mas nao pense que a escola privada e melhor do que a publica. Veja um exemplo:

O uniforme era verde e amarelo, vestido para as meninas e bermuda e camisa para os meninos. Tudo gasto, roto, vem velhinho. Os uniformes sao reformados e usados por muitos anos, e passados do maior pro menor.
As meias e sapatos sao so pra ir na escola e na igreja, e assim que chegam, ja lavam e guardam.
As mochilas tem decadas e estao em pedacos.

No Kenya a maioria das pessoas so consegue comprar roupa usada. Roupa nova eh fora de cogitacao, coisa de rico. Entao, eles vao na “feira” e compram (depois detalho melhor a feira).
Eh proibido vender roupa intima usada, entao imagina a dificuldade. Sabiamos disso e levamos uns pacotes de cuecas e calcinhas, que foram muito bem recebidos.

Apesar do Kenya estar bem na linha do Equador, Nairobi e regiao estao a 2000 metros acima do nivel do mar, entao faz um friozinho. E agora eh estacao de chuvas.
De noitinha e de manha (principalmente das 04:00 as 06:00 da manha) faz frio mesmo! E a criancada de pe descalco dentro de casa... Eles tem chinelo, mas nao usam dentro de casa.
Contaram que em julho faz tanto frio que eles andam enrolados em cobertor, e a lareira esta acesa sempre que possivel.
Tivemos sorte e nas semanas que estavamos la nao choveu muito. Quando chovia, passava rapido, mas ficava tudo uma lama so.
A criancada nao tem nem guarda-chuva (com excecao de meia duzia que ganhou de algum parente) e se chove na ida ou volta da escola, nao tem outra opcao a nao ser se molhar.

Voltavamos da escola, almocavamos e ai era hora da soneca da tarde (para todos que estavam em casa).Depois brincavamos um pouco com os pequenos, ajudavamos na tarefa escolar e o Andre voltava a catalogar os livros e a Lu voltava pra cozinha.

Com os pequenos eram varias brincadeiras, desde bolhas de sabao, ate passar tinta na mao deles e “carimbar” no papel, dancar e cantar, aquelas brincadeiras de bater na mao em sequencia (tipo a-do-le-ta) e por ai vai.
O Andre brincou de esconde-esconde e “jackin’ the ball” (ou seria jack in the box?), em que um fica no meio, canta a musiquinha e faz algo que os outros tem que imitar. Rendeu muitas risadas.

A hora dos estudos era braba. Algumas criancas sao muuuuito fraquinhas.
Temos que lembrar que estas criancas passaram por muitas dificuldades, e acho que algumas tiveram ate danos no cerebro.
A Ruth (a mae adotiva, a mulher que criou o orfanato) nos contou que antes de resgatar as criancas, algumas chegavam a passar de 3 ate 5 dias sem comer, so tomando um copo de agua morna.
Um exemplo e a Rose. Ela tem 8 anos, mas tem o tamanho e o peso de uma crianca de 5 ou 6.
Quando a Ruth a trouxe, ela estava completamente desnutrida, sem cabelo e correndo risco de vida. Os pais morreram de AIDS quando ela tinha 3 anos, e a mae ja infectada tinha amamentado-a. Mas fizeram os testes e felizmente a menina nao pegou o virus.
Obviamente criancas que passaram estas privacoes nao conseguem ter o mesmo aproveitamento na escola que uma crianca normal. Mas elas estao tentando e progredindo aos poucos.
E tem alguns inteligentes e muito esforcados.

A noite era hora entao da tao esperada pizza. Tivemos que nos adaptar, pois eles nao tem forno.
Fizemos as pizzas no carvao, usando a chapa de chapati (um tipo de pao chato, parecido com uma panqueca) e uma panela virada em cima para segurar o calor e derreter o queijo.
Apesar de ter queimado um pouquinho a parte de baixo da massa, a criancada adorou.

As criancas comem MUITO. Quando digo muito, vcs nao tem nocao. O prato e uma montanha de comida. Porcao que dois adultos dividiriam no Brasil.
Mas eh porque so comem tres vezes por dia. Nao tem absolutamente nada entre as refeicoes.
E mesmo assim, sao magrinhos. Aqueles bracinhos e perninhas finos.
Nos tinhamos que controlar de perto a porcao que colocavam no nosso prato, pois vc tem que comer tudo tudinho.
Eles nao entendiam como podiamos comer tao “pouco”. Quando eu falava que a quantidade de comida que 32 criancas comiam la seria suficiente para alimentar 50 criancas no Brasil, elas nao acreditavam.

Eles tem um cardapio organizado para cada dia da semana.
A base alimentar e arroz e feijao (ou outro tipo de grao). Uma ou duas vezes por semana um pouquinho de carne (geralmente num molho). E alguns dias por semana o tal do ugali (polenta branca grossa sem sabor) e o chapati (o pao chato tipo panqueca, gorduroso que so).
O dia do ugali era o mais brabo pra nos. Era so o ugali com couve refogada, e eh de comer com a mao. Mas vamos la.
Outro dia fizeram uma comida especial pra nos, que eh um cozido de banana verde (enorme, diferente, em ingles chama-se “plantain”) e batatas, com temperos. Muito bom!
Usam muito coentro (o tempero verde forte) em tudo. Acho que eles nao tem salsinha, so coentro. Sabe que fica muito bom na lentilha?
Em datas especiais, eles matam uma galinha. Para nos homenagear mataram o galo e duas galinhas (contra nossa vontade, nao queriamos dar este gasto pra eles). Fazem a galinha quase inteira (tiram o pe, mas deixam as pernas).
So tomam agua (felizmente eles tem poço), e de manha tomam o “cha”, que eh ao estilo britanico (leite com agua e cha). O orfanato tem uma vaquinha = leite.
Cafe eh muito caro pra eles. Apesar de o Kenya plantar cafe, vai quase todo pra exportacao.
De vez em quando uma fruta de sobremesa (enquanto estavamos la teve pera e laranja).
Quando eh uma festa realmente muito especial, tem churrasco de bode. Comemos um cozido com um pouco de carne de bode na primeira casa (na favela), e a carne eh dura e pura cartilagem.

Depois de comer as criancas “varrem” e lavam o chao. A ‘vassoura’ eh um ramo de galhos fininhos secos. Eles fazem tudo abaixados, o que pras nossas costas seria tortura. Lavar roupa e na mao, e na bacia, pois nao tem tanque.

Depois eh hora da oração, alguns hinos e depois estudar.
As turmas sao divididas e o Andre e a Lu iam ajudar.
Tem uma professorinha no orfanato, que organiza o que eles estudam cada dia e corrige os trabalhos.
Fizemos muita leitura, ditados e afins. Demos uns adesivinhos para motivar.

Depois que ainda nao tomou banho deve tomar e eh hora de dormir.
O banho eh de balde, pois nao tem chuveiro. Felizmente esquentam um tanto de agua no carvao.
Aprendemos que da pra tomar banho com bem pouca agua. Meia bacia ja da.
Nossa vaidade ficou esquecida. Nem espelho ele so tinham, so um pequeno todo manchado.

Esta era a rotina.
Toda noite davamos alguma coisinha pra eles, um chocolate, um lapis, livros, adesivos, balao, presentinhos, etc.
Eles aprenderam a dizer “obrigado” e nos a dizer “karibu” (de nada).

A Lu ficou muito amiga das “tias”. Elas eram interessadas e sempre queriam saber como eram as coisas no Brasil e nos USA.
A maioria delas tem familia, filhos, mas moram longe (ate 12 horas de viagem). Elas tiveram que sair de casa para ir procurar emprego, e perto de Nairobi eh onde ainda tem algumas oportunidades e pagam melhor. Algumas das tias so vem os filhos 3 vezes por ano.
As trabalhadoras domesticas sao meio discriminadas. Tem que comer separadas, la fora e so depois que todo mundo ja comeu, por exemplo. Na primeira casa que ficamos a coitada da empregada era muito excluida. Dei uma pulseira e um pacote de bolachas pra ela quando fomos embora, e ela chorou de alegria e me deu um abraco que valeu por uma vida.

Mas todo mundo, TODO MUNDO MESMO tem celular. E o celular pega em qualquer lugar. Nos as vezes no meio do nada, por exemplo na reserva onde fizemos safari, e o celular deles da sinal. Entao, pelo menos todo mundo se comunica.
E-mail e internet tambem ja tem em toda e qualquer vila. Coneccao discada, uma demooooora, mas tem. 10 minutos de acesso custam 10 shillings = US$ 0,15.

Um dia a assistente da cozinheira convidou a Lu pra ir com ela no “mercado” (feira), na vila de Ngong.
Foi uma experiencia e tanto.
Sao milhares de barraquinhas (podres, nao sei como param em pe) onde se vende de tudo. Frutas, verduras, roupas e sapatos usados, utensilios de cozinha, radio, enfim, o que puder imaginar.
Tem tambem os acougues, uma coisa a parte. La eles nao refrigeram carne (pra comecar geladeira e luxo pra poucos). Entao vc ve aqueles pedacoes de bode e gado pendurados na janela, e o acougueiro cortando o pedaco que vc quer com um facao em cima de um tronco de madeira (que esta la so Deus sabe quanto a quanto tempo). Acho que nao preciso mencionar a higiene (ou melhor, falta dela), ne?!

Tudo alias muito sujo. Sacolas plasticas e restos de verduras por tudo, cabras e bodes passeando pelo meio, lama, etc.
Cada tribo tem sua comida tipica, verduras especificas, etc.
Compramos tomate, cebola e laranjas, e voltamos pro orfanato de matatu.

Pegar matatu eh quase risco de vida. As vans parecem sobreviventes de bomba atomica. Estao caindo aos pedacos, tem buracos no teto e no chao, nao tem cintos de seguranca e nem sei como ainda estao rodando. Os motoristas ganham pelo numero de corridas que realizam, entao dirigem como doidos, correndo, indo pelo acostamento, ultrapassando por todos os lados.
Alguns matatus sao personalizados. Vimos um pintado como “Ferrari”, outro com desenho da Britney, e com nomes criativos.

As criancas tem ambicoes variadas. Das meninas grandes, uma quer ser aeromoca, a outra bancaria. Os meninos querem ser piloto ou engenheiro mecanico. Muitas meninas querem ser medicas.
Se forem bem na escola, existe possibilidade de fazerem faculdade. A melhor aluna (Susan), vai para o internato, onde a educacao e melhor.

E estao bem. O que mantem a esperanca e recuperou estas criancas foi a fe.
O resgate destas criancas foi atraves de uma igreja, e eles acreditam e seguem fielmente na vida crista.
E gracas a Deus e as pessoas que ele usou como instrumento que estas criancas estao bem, felizes e seguras hoje.

Eh interessante observar que estas criancas e o orfanato onde estavamos nao tem como objetivo adocao.
Para eles, a familia e “irmaos” do orfanato sao a nova familia. Eles pretendem ficar juntos ate terem um emprego e casar.

Na sexta-feira o “pai” quis nos levar pra passear. Fomos a um shopping onde tem um “masai market”.
Masaai e uma das grandes tribos do Kenya. Fora das cidades, eles ainda vivem como ha centenas de anos atras.
As mulheres eh que fazem tudo, desde construir a casa (feita de barro, galhos e estrume), cozinhar, cuidar dos filhos, etc.
Os homens no maximo pastoreiam o gado, quando muito. Os homens podem ter varias esposas e estas nao tem direito a nada. Elas nao podem ter nenhum bem (tipo vacas) ou renda. Quando o marido morre, se a esposa nao tiver filhos homens, pode ser que morra de fome.
Os masai sao muito magros, fazem um buraco gigante na orelha e andam envoltos em cobertores xadrez coloridos (que eles mesmo fazem, nao sei como), em tons de vermelho e/ou rosa.
As casas das tribos sao cercadas de espinhos e galhos, para evitar que leoes e leopardos ataquem durante a noite.
Fomos comprar uns souvenirs neste mercado masai, mas eh uma experiencia brutal. Alem do assedio, vc tem que barganhar muito, pois ao ver um branco, o preco se multiplica muitas vezes.

No fim, estavamos muito apegados – nos e as criancas.
Nao pudemos causar nenhum grande impacto na vida deles, mas demos carinho, fizemos eles rir, entregamos presentinhos, brincamos juntos, trocamos conhecimento sobre nossos paises e tentamos ajudar um pouco com o estudo.
Tenho certeza que nos aprendemos muito mais do que eles.
A ultima noite foi uma choradeira, e alguns nos entregaram cartinhas (que nem tivemos coragem de abrir ainda).

Eles ja tinham recebido voluntarios la (tem uma igreja no Tenessee que ajuda a patrocina-los, cujos doadores visitam uma vez ao ano), mas ninguem antes tinha ficado la, dormido la e por tanto tempo.

Todos nos reforcamos a nocao de que cor de pele eh tao importante quanto cor do figado ou do esofago. Alias, quando fomos no shopping para o masai market, estranhamos ao ver gente branca.
Somos todos pessoas e tudo o que queremos e uma vida digna e amor.
E aprendemos que, quando alguem quer (como a Ruth), pode mudar o mundo. Pelo menos o mundo de 32 criancas.
Com fe em Deus, as portas se abrem e milagres acontecem.


3a. parte - Aventuras na Africa - ultima! (versao portugues)

Ufa!
Vcs foram muito pacientes, e aqui vai a ultima parte do nosso relato.
Comecamos com curiosidades, fatos e dados. E tambem respondendo algumas perguntas.

Fomos atraves de uma organizacao chamada "Global Volunteers Network", baseada na Nova Zelandia.
Pesquisei mais de 8 organizacoes de que fazem este tipo de "turismo + voluntariado" , e optamos pela mais barata.
Alguns de vcs perguntaram: pagamos tudo do nosso bolso e usamos nossas ferias.
Se quiserem conhecer mais: http://www.volunteer.org.nz/programs/

O Kenya tem 31 milhoes de habitantes, sendo 3.5 milhoes vivendo em Nairobi.
Sao 42 tribos, e a maior e a dos Kikuyo, que vive na regiao central do pais (Nairobi inclusive).
Cada tribo tem a sua lingua, mas convergem na lingua nacional, que eh o swahili. A lingua oficial (para escola, governo, etc) eh o ingles.

Muitos deles nao pronunciam bem o R no inicio das palavras, falando tipo Cebolinha (‘rain’ eles falam “lain”).

Nao existe contato fisico em publico entre homem e mulher. Nem andar de mao dada eu e o Andre podiamos.
Mas as vezes vc ve dois homens ou duas mulheres de mao dada. Entre amigos do mesmo sexo, nao ha problema.

Tirar fotos nao eh um gesto apreciado. Eh completamente proibido tirar fotos de predios publicos.
Se vc tentar tirar foto de algum masaai, por exemplo, mesmo que de longe, eles vao atirar pedra em vc. Agora se vc parar, pedir permissao e pagar, a coisa muda.
Mas em muitos lugares que vimos coisas absurdas, situacoes curiosas e gente interessante, nao pudemos fotografar.

A cerveja local se chama Tusker, e eh bem leve. Tem tambem uma outra versao bem saborosa.

A unica fruta que comemos fora do orfanato foi um maracuja pequeno muito doce, que um cara insistiu pra provarmos no mercado municipal. Comemos meio contra a vontade, pois era sem lavar e foi cortado com uma faca velha e sabe Deus quando foi a ultima vez que foi lavada...
Eles nao comem salada fresca. Os vegetais so sao usados em pratos que eles cozinham.

O banheiro publico que usei no centro da cidade era tambem do tipo buraco no chao.


Num restaurante chamado “Carnivore” comemos almondegas de avestruz e carne de crocodilo. A primeira e forte, mas muito boa. Ja o reptil e bem gorduroso e lembra uma mistura de peixe com frango.


Vimos varios atletas quenianos correndo, treinando. Eles correm por tudo, longuissimas distancias, sem demonstrar o menor cansaco.
Vimos na TV que os ganhadores das maratonas deste ano estavam indignados, pois nao ganharam absolutamente NADA do governo, nem sequer um incentivo. Uma loja deu de presente para os campoes uma TV de tela plana, and that’s it.

Tem blitz policiais por tudo. Depois que escurece, em certas estradas a cada 500m tinha uma barricada.

O remedio de malaria que tomamos eh um preventivo. Vc comeca a tomar dois dias antes da viagem e continua tomando ate 7 dias depois de voltar pra casa. Mas eh caro, coisa pra estrangeiro.
Apesar de nao termos sido atacados por mosquitos, quase todo mundo la ja teve malaria pelo menos uma vez.
A nigeriana que foi conosco no safari teve 15 vezes no mesmo ano, so pra vcs terem uma ideia.
Mas eles tem um remedio muito eficiente, se vc tomar logo que aparecerem os primeiros sintomas.

No nosso orfanato tinha gatos, mas por motivos praticos. A gata-mae passava orgulhosa pela sala, exibindo os ratos que cacava.
Num orfanato onde outros voluntarios estavam, do outro lado das Ngong Hills, na entrada da floresta, as criancas mataram uma cobra black mamba (uma das mais venenosas do mundo) no jardim, toda noite se ouviam hienas e um vizinho foi atacado por um leopardo.
Uma das voluntarias foi picada pela “Nairobi fly”, uma mosquinha vermelha que provoca uma queimadura redonda que leva semanas pra desaparecer.

Encontramos muitas pessoas queridas. Tinha gente que nos parava na rua, dizia que eramos bem-vindos ao pais, perguntava, dava a mao.Quando falavamos que eramos do Brasil, a reacao sempre era boa. Todos falavam do Ronaldinho.
La eles torcem pro futebol ingles. Enquanto estavamos la, teve jogo entre o Manchester e o AC Milan. O orfanato inteiro estava torcendo pro Manchester, mas o nosso Kaka fez seus gols e garantiu a vitoria do AC Milan.
As meninas grandes acham o Dida um gato.

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E esta parte agora, abaixo, eh para os que tem estomago forte.
Aqui vamos falar dos maiores problemas e do dificilimo ultimo dia na favela de Kibera.
Vc decide se quer continuar lendo.

Como qualquer pais do mundo e qualquer grande cidade do mundo, existem dois tipos de pessoas: boas e ruins.

Uma coisa chata e que estao sempre tentando levar vantagem em cima de vc.Eles assumem automaticamente que qualquer estrangeiro (e branco) tem dinheiro, e que devemos pagar mais por tudo.
Tem que conferir o troco, negociar o preco do matatu e taxi antecipado, e barganhar muito o preco de qualquer coisa que for comprar. Nos ensinaram que a regra e dividir por 4 o preco inicial que fizeram, e ir negociando para chegar ate no max. perto de 50% do valor inicial.

Infelizmente o Kenya eh bem mais perigoso do que pensavamos. Apesar de ser um dos paises mais tranquilos da Africa, nao eh facil.
Existe uma gangue de agitadores (assassinos de aluguel) chamados “mungiki”, que ataca em certos bairros matando a facao quem encontra pela frente, e tocando fogo em onibus e matatus (acho que ja vi isso em algum outro lugar...).
Alguns voluntarios nao tao escolados foram assaltados e sofreram sequestro-relampago (tambem ja ouvi isso antes).
Existem ocasionalmente brigas entre tribos, em que alguem acaba morto.
E la pertinho do nosso orfanato, ano passado dois turistas americanos foram emboscados e assassinados.
Nosso orfanato eh no pe das Ngong Hills, umas montanhas em que ate pouco tempo atras, era onde o presidente anterior matava seus opositores e quem nao entrasse no jogo de corrupcao.
Ou seja, vc deve seguir a risca as regras: os brancos nao devem sair de casa apos escurecer, e se vc tiver que pegar algum matatu (lotacao), deve faze-lo antes das 16:00. Andar quase sem dinheiro, sem nenhum objeto de valor, evitar certas areas.
Mas nos sabiamos o tempo todo que estavamos protegidos e seguros, pois tinha um monte de gente orando por nos.
Nos sabiamos que Deus tinha um proposito pra esta viagem e que os anjos dele estavam conosco sempre.
Andamos de onibus sem problema duas vezes.

A corrupcao impera.
Quer tirar carteira de motorista? Eh so comprar. Se quiser fazer legalmente, vai ter que pagar um por fora de qualquer jeito.
Quer fazer servico militar ou trabalhar num orgao publico? So pagando por fora para varios envolvidos.
Donativos internacionais para ONGs, orfanatos e afins? A maioria vai parar no bolso de alguem.
O novo governo esta fazendo muitas coisas boas, mas eh corrupto ate nao poder mais (ja ouvi isso em algum outro lugar tambem...).

As criancas do nosso orfanato estao bem, felizes, crescendo e progredindo.
Mas as historias do passado delas sao muito tristes, sabemos que varias sofreram abusos (de todos os tipos), mas so perguntamos uma ou outra coisa para a Ruth.
Todos sao orfaos, e a maioria perdeu os pais por causa da AIDS, mas tambem tuberculose e outros problemas.
Pelo menos uma vez por ano elas vao visitar os parentes (irmaos, tios, primos ou quem ainda tiverem de familia). Os parentes tem que assinar uma carta em que eles se comprometem a garantir que nada de mal vai acontecer com as criancas. Nesta carta constam as leis e consequencias. A necessidade desta carta eh pra evitar que alguma crianca acabe estuprada pelo proprio tio, por exemplo....

Ouvimos historias horriveis sobre orfanatos que “vendem” as criancas para casais de estrangeiros que vem (com boas intencoes) adotar. E pior ainda, lugares disfarcados de orfanatos em que se cultuava o demonio e faziam sacrificio de criancas (felizmente fechados pelo governo ha alguns anos).
Hoje o governo tem um controle rigido, com inspecoes anuais, auditorias, regulamentos. Se as condicoes nao forem adequadas, eles fecham.

Sao tantos orfaos que tem orfanatos por tudo. Nos estavamos em uma area rural, a 1 hora de distancia da cidade, mas tinha pelo menos 10 orfanatos na redondeza.

Na manha de sabado nos despedimos e fomos para a cidade.
Como nosso voo era so tarde da noite, resolvemos fazer uma caminhada pela favela de Kibera, pra conhecer e entregar uns donativos pra criancada de la.
Com um morador do local de guia (a unica opcao segura), fomos.
Kibera eh uma favela gigantesca. Tem mais de 1 milhao de habitantes.
Estimam que ate 80% esteja infectado com o HIV.
E eh muito pior que qualquer favela brasileira. A Rocinha e luxuosa perto da Kibera.
Existe uma avenida principal, asfaltada, que e onde passam os onibus. Todas as outras ruas sao de chao batido.
Eh quase como se fosse uma cidade. Tem comercio (de novo aquelas barraquinhas caindo aos pedacos) local, a feira. Veja um acougue:

Com donativos de ONG e voluntarios, foi construida uma clinica e maternidade, para eles um grande progresso, mas na nossa ideia algo que a gente talvez visse no lugar mais desolado e pobre do sertao nordestino.
O atendimento e gratuito, cobrando apenas um valor simbolico.

No Kenya existem testes de AIDS rapidos, cujo resultado fica pronto em 10 minutos.
Sao dois testes diferentes, e o tecnico do laboratorio nos ensinou que verificam os anticorpos. Mas o teste so funciona se a pessoa estiver infectada a mais de 3 meses, entao muitas vezes tem que repetir apos passado este periodo.

Se a pessoa for HIV positiva, o governo fornece medicamentos gratuitamente.
Mas o problema eh muito mais grave do que se pensa.
Em primeiro lugar, se a pessoa for positiva, e completamente discriminada. Mesmo entre os familiares, ninguem quer contato com o aidetico. Maes isolam filhos, filhos ignoram pais, irmaos se afastam, etc.
Estas pessoas ficam praticamente abandonadas a propria sorte. E, segundo voluntarios da nossa organizacao que trabalham na favela, muitas delas nao tem o que comer. Como os remedios sao fortissimos, se elas tomam de estomago vazio, em vez de melhorar, pioram.

As pessoas nao tem a menor nocao de higiene.
Ate pouco tempo atras, eram duas as opcoes para fazer suas “necessidades”.
Uma era o chamado “flying toilet”. As pessoas faziam o que tinham que fazer num saco plastico, davam um no e atiravam longe, sem se importar onde o “produto” iria aterrissar.
A outra opcao era fazer em qualquer cantinho, na rua, atras da casa, etc.
Nao existe esgoto, nao existe fossa, agua encanada e nem galerias de agua pluvial.
Entao, vc pode imaginar o que acontecia quando chovia forte e a agua inundava tudo. Todos estes “produtos” humanos (e dos animais – caes, cabras, bodes) saiam boiando e espalhando doencas por tudo.
A equipe do filme “O Jardinheiro Fiel” construiu banheiros e chuveiros publicos em diversos pontos da favela, resolvendo de maneira simples um problema complicado. Mas claro que ainda nao esta 100%, e algumas pessoas que nao precisam ser mencionadas pisaram na m...

A ONU construiu grandes tanques de agua em varios pontos, de forma que as pessoas nao precisam mais andar longas distancias para ter agua pra beber e cozinhar.

As casas sao feitas de barro e galhos, com o telhado de chapas de metal.
Entramos na casa do guia, e em um quartinho minusculo dormem ele, a esposa e 5 filhos. As poucas roupas ficam em cabides pendurados na propria parede. Entre os bens de maior valor, uma TV pequenina e um radinho.
Isso que este eh um cara de sorte, que tem emprego (ele guia as equipes de filmagens que vem fazer documentarios na favela, e foi ele que escolheu as locacoes do filme), e meio influente na comunidade.

O lixo esta por tudo.

Uma “vantagem” eh que la as favelas nao sao dominadas por traficantes. Droga la e assunto serio e se vc for pego (como usuario) sao 7 anos de cadeia. Se for traficante, e prisao perpetua.
Mesmo assim, se consegue maconha baratinha, e muitas criancas cheiram cola.
O maior problema eh a bebida. Eles tem as destilarias caseiras e um copo pode ser comprado ate por 1 shilling = US$ 0.015.
Lemos que as vezes eles misturam de tudo nesta bebida, inclusive pilhas, baterias, etc. Parece que ano retrasado em algum lugar do pais 50 pessoas morreram apos tomar uma destas cachacas batizadas.

Vimos um homem vendendo churrasco, pes de boi (com o casco, resto de pelo e tudo).

Eh muito triste ver gente, e principalmente criancas, nesta situacao.
Eh uma condicao a que nenhum ser humano deveria ser submetido.
Eh um nivel de pobreza tao absurdo que nossa mente nao consegue conceber. Feiura, sujeira, falta de tudo.
Mas eh real, e sao milhares e milhares de pessoas vivendo isso.

Apesar disso, ao falar com as pessoas, elas nao parecem ter consciencia de quao terrivel a coisa eh. Nasceram e se criaram ali, isso eh o que conhecem, eh a vida delas, e algumas ate parecem confortaveis.
Claro que eles tem o desejo de melhorar e sair dali, mas tirando os que realmente passam fome, sao abusados ou estao doentes, os demais parecem ate de certa maneira conformados.

Quando entregavamos um lapis, uma medalha (de plastico) ou um adesivo, o olhinho da criancada brilhava, eles abriam um sorriso, ficavam felizes que so.
Mas nao tem a menor nocao de educacao, nao sabem dizer por favor e nem obrigado.

Depois de duas horas de caminhada, nos ja estavamos com o estomago completamente travado, o espirito abatido e o coracao quebrado.
O problema eh tao grande que parece impossivel de resolver, e vc se sente completamente impotente.

Mas se todo mundo fizer um pouquinho, se todo mundo doar um pouquinho, se os governos e empresarios deste mundo se reunissem, se as ONGs trabalhassem juntas, se as pessoas se mobilizassem, pouco a pouco, a coisa poderia melhorar.

Isso nos fez ver que o Brasil, com todos os problemas, ainda esta muito melhor do que o povo africano.
E que nos somos muito privilegiados, e deveriamos ser muito, muito gratos por tudo o que somos e temos.
E que, como tal, temos a obrigacao de fazer nossa parte e ajudar no que for possivel, para este mundo ser um pouco melhor. Seja na Africa, no Brasil, onde for.