Vcs foram muito pacientes, e aqui vai a ultima parte do nosso relato.
Comecamos com curiosidades, fatos e dados. E tambem respondendo algumas perguntas.
Fomos atraves de uma organizacao chamada "Global Volunteers Network", baseada na Nova Zelandia.
Pesquisei mais de 8 organizacoes de que fazem este tipo de "turismo + voluntariado" , e optamos pela mais barata.
Alguns de vcs perguntaram: pagamos tudo do nosso bolso e usamos nossas ferias.
Se quiserem conhecer mais: http://www.volunteer.org.nz/programs/
O Kenya tem 31 milhoes de habitantes, sendo 3.5 milhoes vivendo em Nairobi.
Sao 42 tribos, e a maior e a dos Kikuyo, que vive na regiao central do pais (Nairobi inclusive).
Cada tribo tem a sua lingua, mas convergem na lingua nacional, que eh o swahili. A lingua oficial (para escola, governo, etc) eh o ingles.
Muitos deles nao pronunciam bem o R no inicio das palavras, falando tipo Cebolinha (‘rain’ eles falam “lain”).
Nao existe contato fisico em publico entre homem e mulher. Nem andar de mao dada eu e o Andre podiamos.
Mas as vezes vc ve dois homens ou duas mulheres de mao dada. Entre amigos do mesmo sexo, nao ha problema.
Tirar fotos nao eh um gesto apreciado. Eh completamente proibido tirar fotos de predios publicos.
Se vc tentar tirar foto de algum masaai, por exemplo, mesmo que de longe, eles vao atirar pedra em vc. Agora se vc parar, pedir permissao e pagar, a coisa muda.
Mas em muitos lugares que vimos coisas absurdas, situacoes curiosas e gente interessante, nao pudemos fotografar.
A cerveja local se chama Tusker, e eh bem leve. Tem tambem uma outra versao bem saborosa.
A unica fruta que comemos fora do orfanato foi um maracuja pequeno muito doce, que um cara insistiu pra provarmos no mercado municipal. Comemos meio contra a vontade, pois era sem lavar e foi cortado com uma faca velha e sabe Deus quando foi a ultima vez que foi lavada...
Eles nao comem salada fresca. Os vegetais so sao usados em pratos que eles cozinham.
O banheiro publico que usei no centro da cidade era tambem do tipo buraco no chao.
Num restaurante chamado “Carnivore” comemos almondegas de avestruz e carne de crocodilo. A primeira e forte, mas muito boa. Ja o reptil e bem gorduroso e lembra uma mistura de peixe com frango.
Vimos varios atletas quenianos correndo, treinando. Eles correm por tudo, longuissimas distancias, sem demonstrar o menor cansaco.
Vimos na TV que os ganhadores das maratonas deste ano estavam indignados, pois nao ganharam absolutamente NADA do governo, nem sequer um incentivo. Uma loja deu de presente para os campoes uma TV de tela plana, and that’s it.
Tem blitz policiais por tudo. Depois que escurece, em certas estradas a cada 500m tinha uma barricada.
O remedio de malaria que tomamos eh um preventivo. Vc comeca a tomar dois dias antes da viagem e continua tomando ate 7 dias depois de voltar pra casa. Mas eh caro, coisa pra estrangeiro.
Apesar de nao termos sido atacados por mosquitos, quase todo mundo la ja teve malaria pelo menos uma vez.
A nigeriana que foi conosco no safari teve 15 vezes no mesmo ano, so pra vcs terem uma ideia.
Mas eles tem um remedio muito eficiente, se vc tomar logo que aparecerem os primeiros sintomas.
No nosso orfanato tinha gatos, mas por motivos praticos. A gata-mae passava orgulhosa pela sala, exibindo os ratos que cacava.
Num orfanato onde outros voluntarios estavam, do outro lado das Ngong Hills, na entrada da floresta, as criancas mataram uma cobra black mamba (uma das mais venenosas do mundo) no jardim, toda noite se ouviam hienas e um vizinho foi atacado por um leopardo.
Uma das voluntarias foi picada pela “Nairobi fly”, uma mosquinha vermelha que provoca uma queimadura redonda que leva semanas pra desaparecer.
Encontramos muitas pessoas queridas. Tinha gente que nos parava na rua, dizia que eramos bem-vindos ao pais, perguntava, dava a mao.Quando falavamos que eramos do Brasil, a reacao sempre era boa. Todos falavam do Ronaldinho.
La eles torcem pro futebol ingles. Enquanto estavamos la, teve jogo entre o Manchester e o AC Milan. O orfanato inteiro estava torcendo pro Manchester, mas o nosso Kaka fez seus gols e garantiu a vitoria do AC Milan.
As meninas grandes acham o Dida um gato.
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E esta parte agora, abaixo, eh para os que tem estomago forte.
Aqui vamos falar dos maiores problemas e do dificilimo ultimo dia na favela de Kibera.
Vc decide se quer continuar lendo.
Como qualquer pais do mundo e qualquer grande cidade do mundo, existem dois tipos de pessoas: boas e ruins.
Uma coisa chata e que estao sempre tentando levar vantagem em cima de vc.Eles assumem automaticamente que qualquer estrangeiro (e branco) tem dinheiro, e que devemos pagar mais por tudo.
Tem que conferir o troco, negociar o preco do matatu e taxi antecipado, e barganhar muito o preco de qualquer coisa que for comprar. Nos ensinaram que a regra e dividir por 4 o preco inicial que fizeram, e ir negociando para chegar ate no max. perto de 50% do valor inicial.
Infelizmente o Kenya eh bem mais perigoso do que pensavamos. Apesar de ser um dos paises mais tranquilos da Africa, nao eh facil.
Existe uma gangue de agitadores (assassinos de aluguel) chamados “mungiki”, que ataca em certos bairros matando a facao quem encontra pela frente, e tocando fogo em onibus e matatus (acho que ja vi isso em algum outro lugar...).
Alguns voluntarios nao tao escolados foram assaltados e sofreram sequestro-relampago (tambem ja ouvi isso antes).
Existem ocasionalmente brigas entre tribos, em que alguem acaba morto.
E la pertinho do nosso orfanato, ano passado dois turistas americanos foram emboscados e assassinados.
Nosso orfanato eh no pe das Ngong Hills, umas montanhas em que ate pouco tempo atras, era onde o presidente anterior matava seus opositores e quem nao entrasse no jogo de corrupcao.
Ou seja, vc deve seguir a risca as regras: os brancos nao devem sair de casa apos escurecer, e se vc tiver que pegar algum matatu (lotacao), deve faze-lo antes das 16:00. Andar quase sem dinheiro, sem nenhum objeto de valor, evitar certas areas.
Mas nos sabiamos o tempo todo que estavamos protegidos e seguros, pois tinha um monte de gente orando por nos.
Nos sabiamos que Deus tinha um proposito pra esta viagem e que os anjos dele estavam conosco sempre.
Andamos de onibus sem problema duas vezes.
A corrupcao impera.
Quer tirar carteira de motorista? Eh so comprar. Se quiser fazer legalmente, vai ter que pagar um por fora de qualquer jeito.
Quer fazer servico militar ou trabalhar num orgao publico? So pagando por fora para varios envolvidos.
Donativos internacionais para ONGs, orfanatos e afins? A maioria vai parar no bolso de alguem.
O novo governo esta fazendo muitas coisas boas, mas eh corrupto ate nao poder mais (ja ouvi isso em algum outro lugar tambem...).
As criancas do nosso orfanato estao bem, felizes, crescendo e progredindo.
Mas as historias do passado delas sao muito tristes, sabemos que varias sofreram abusos (de todos os tipos), mas so perguntamos uma ou outra coisa para a Ruth.
Todos sao orfaos, e a maioria perdeu os pais por causa da AIDS, mas tambem tuberculose e outros problemas.
Pelo menos uma vez por ano elas vao visitar os parentes (irmaos, tios, primos ou quem ainda tiverem de familia). Os parentes tem que assinar uma carta em que eles se comprometem a garantir que nada de mal vai acontecer com as criancas. Nesta carta constam as leis e consequencias. A necessidade desta carta eh pra evitar que alguma crianca acabe estuprada pelo proprio tio, por exemplo....
Ouvimos historias horriveis sobre orfanatos que “vendem” as criancas para casais de estrangeiros que vem (com boas intencoes) adotar. E pior ainda, lugares disfarcados de orfanatos em que se cultuava o demonio e faziam sacrificio de criancas (felizmente fechados pelo governo ha alguns anos).
Hoje o governo tem um controle rigido, com inspecoes anuais, auditorias, regulamentos. Se as condicoes nao forem adequadas, eles fecham.
Sao tantos orfaos que tem orfanatos por tudo. Nos estavamos em uma area rural, a 1 hora de distancia da cidade, mas tinha pelo menos 10 orfanatos na redondeza.
Na manha de sabado nos despedimos e fomos para a cidade.
Como nosso voo era so tarde da noite, resolvemos fazer uma caminhada pela favela de Kibera, pra conhecer e entregar uns donativos pra criancada de la.
Com um morador do local de guia (a unica opcao segura), fomos.
Kibera eh uma favela gigantesca. Tem mais de 1 milhao de habitantes.
Estimam que ate 80% esteja infectado com o HIV.
E eh muito pior que qualquer favela brasileira. A Rocinha e luxuosa perto da Kibera.
Existe uma avenida principal, asfaltada, que e onde passam os onibus. Todas as outras ruas sao de chao batido.
Eh quase como se fosse uma cidade. Tem comercio (de novo aquelas barraquinhas caindo aos pedacos) local, a feira. Veja um acougue:
Com donativos de ONG e voluntarios, foi construida uma clinica e maternidade, para eles um grande progresso, mas na nossa ideia algo que a gente talvez visse no lugar mais desolado e pobre do sertao nordestino.
O atendimento e gratuito, cobrando apenas um valor simbolico.
No Kenya existem testes de AIDS rapidos, cujo resultado fica pronto em 10 minutos.
Sao dois testes diferentes, e o tecnico do laboratorio nos ensinou que verificam os anticorpos. Mas o teste so funciona se a pessoa estiver infectada a mais de 3 meses, entao muitas vezes tem que repetir apos passado este periodo.
Se a pessoa for HIV positiva, o governo fornece medicamentos gratuitamente.
Mas o problema eh muito mais grave do que se pensa.
Em primeiro lugar, se a pessoa for positiva, e completamente discriminada. Mesmo entre os familiares, ninguem quer contato com o aidetico. Maes isolam filhos, filhos ignoram pais, irmaos se afastam, etc.
Estas pessoas ficam praticamente abandonadas a propria sorte. E, segundo voluntarios da nossa organizacao que trabalham na favela, muitas delas nao tem o que comer. Como os remedios sao fortissimos, se elas tomam de estomago vazio, em vez de melhorar, pioram.
As pessoas nao tem a menor nocao de higiene.
Ate pouco tempo atras, eram duas as opcoes para fazer suas “necessidades”.
Uma era o chamado “flying toilet”. As pessoas faziam o que tinham que fazer num saco plastico, davam um no e atiravam longe, sem se importar onde o “produto” iria aterrissar.
A outra opcao era fazer em qualquer cantinho, na rua, atras da casa, etc.
Nao existe esgoto, nao existe fossa, agua encanada e nem galerias de agua pluvial.
Entao, vc pode imaginar o que acontecia quando chovia forte e a agua inundava tudo. Todos estes “produtos” humanos (e dos animais – caes, cabras, bodes) saiam boiando e espalhando doencas por tudo.
A equipe do filme “O Jardinheiro Fiel” construiu banheiros e chuveiros publicos em diversos pontos da favela, resolvendo de maneira simples um problema complicado. Mas claro que ainda nao esta 100%, e algumas pessoas que nao precisam ser mencionadas pisaram na m...
A ONU construiu grandes tanques de agua em varios pontos, de forma que as pessoas nao precisam mais andar longas distancias para ter agua pra beber e cozinhar.
As casas sao feitas de barro e galhos, com o telhado de chapas de metal.
Entramos na casa do guia, e em um quartinho minusculo dormem ele, a esposa e 5 filhos. As poucas roupas ficam em cabides pendurados na propria parede. Entre os bens de maior valor, uma TV pequenina e um radinho.
Isso que este eh um cara de sorte, que tem emprego (ele guia as equipes de filmagens que vem fazer documentarios na favela, e foi ele que escolheu as locacoes do filme), e meio influente na comunidade.
O lixo esta por tudo.
Uma “vantagem” eh que la as favelas nao sao dominadas por traficantes. Droga la e assunto serio e se vc for pego (como usuario) sao 7 anos de cadeia. Se for traficante, e prisao perpetua.
Mesmo assim, se consegue maconha baratinha, e muitas criancas cheiram cola.
O maior problema eh a bebida. Eles tem as destilarias caseiras e um copo pode ser comprado ate por 1 shilling = US$ 0.015.
Lemos que as vezes eles misturam de tudo nesta bebida, inclusive pilhas, baterias, etc. Parece que ano retrasado em algum lugar do pais 50 pessoas morreram apos tomar uma destas cachacas batizadas.
Vimos um homem vendendo churrasco, pes de boi (com o casco, resto de pelo e tudo).
Eh muito triste ver gente, e principalmente criancas, nesta situacao.
Eh uma condicao a que nenhum ser humano deveria ser submetido.
Eh um nivel de pobreza tao absurdo que nossa mente nao consegue conceber. Feiura, sujeira, falta de tudo.
Mas eh real, e sao milhares e milhares de pessoas vivendo isso.
Apesar disso, ao falar com as pessoas, elas nao parecem ter consciencia de quao terrivel a coisa eh. Nasceram e se criaram ali, isso eh o que conhecem, eh a vida delas, e algumas ate parecem confortaveis.
Claro que eles tem o desejo de melhorar e sair dali, mas tirando os que realmente passam fome, sao abusados ou estao doentes, os demais parecem ate de certa maneira conformados.
Quando entregavamos um lapis, uma medalha (de plastico) ou um adesivo, o olhinho da criancada brilhava, eles abriam um sorriso, ficavam felizes que so.
Mas nao tem a menor nocao de educacao, nao sabem dizer por favor e nem obrigado.
Depois de duas horas de caminhada, nos ja estavamos com o estomago completamente travado, o espirito abatido e o coracao quebrado.
O problema eh tao grande que parece impossivel de resolver, e vc se sente completamente impotente.
Mas se todo mundo fizer um pouquinho, se todo mundo doar um pouquinho, se os governos e empresarios deste mundo se reunissem, se as ONGs trabalhassem juntas, se as pessoas se mobilizassem, pouco a pouco, a coisa poderia melhorar.
Isso nos fez ver que o Brasil, com todos os problemas, ainda esta muito melhor do que o povo africano.
E que nos somos muito privilegiados, e deveriamos ser muito, muito gratos por tudo o que somos e temos.
E que, como tal, temos a obrigacao de fazer nossa parte e ajudar no que for possivel, para este mundo ser um pouco melhor. Seja na Africa, no Brasil, onde for.
2 comments:
Luly e An,
Que pena que o ser humano pode ser tão ruim. Um lugar tão bonito, com tantas coisas lindas e tanta gente boa, estragado pela corrupção, pelo preconceito e pelo crime.
Imagino que deva ter sido uma experiência muito forte, em diversos sentidos, andar por esta favela.
Mas guardem para vocês a descoberta de que, mesmo com muita pobreza é possível viver uma vida digna e até feliz, como vocês viram entre alguns moradores de lá.
O maior problema é a falta de amor ao próximo e a falta de respeito das autoridades.
Fiquei muito feliz por vocês terem vivido esta experiência. Tenho certeza de que vão guardar muitos ensinamentos para toda a vida.
Amo muito vocês. Obrigada por compartilharem tão detalhadamente estes momentos.
Um grande beijo, com muita saudades.
Lahna.
Olá!
Bom, primeiro eu achei mto legal a iniciativa de vocês, de fazer algo assim, pois realmente é necessário... Li tudo, me emocionei, também quero ir... meu medo é querer trazer todas as crianças pra casa!! hehe!! Não imaginava que era tão assim, achava que era mais coisa do interior da africa toda essa pobreza e sofrimento...
Aahhh adorei as fotos dos bichinhos!! hehehe
Bjoss
Lê
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